Já só sirvo de pin-up para mulheres inteligentes se forem idosas"
O protagonista de “Comboio Nocturno para Lisboa”, que se estreia amanhã, regressou à cidade para apresentar o filme de Bille August
A maratona de entrevistas relâmpago lotou a sala Real da estação de comboios do Rossio, num rodopio impróprio para impacientes. Na adaptação ao cinema do romance do suíço Pascal Mercier, que chega às salas amanhã, o actor britânico é Raimund Gregorius, um professor que embarca numa viagem rumo às memórias do Portugal de Salazar. No final de uma longa tarde de flashes, congratulou-se quando os holofotes se desligaram e se abriu uma janela com vista para um fim de dia ameno em Lisboa. “Podemos ter uma conversa descontraída, certo?”, pergunta ao i, a quem se juntou a Arte-Factos, Hardmusica e a Magazine HD. Podemos, devemos, e agradecemos a Irons, enquanto acende um cigarro e lhe passamos o jornal para as mãos para testar o domínio da língua de Pessoa, a ponta do longo novelo de Mercier.
Não sei nada de português, mas posso ficar com ele? Gosto de saber de que se vai falando em cada país. Bom, vamos lá. Não é preciso ser nada muito sério, vamos conversando.
Perfeito. Alguma vez impediu que uma mulher se atirasse da ponte, como a sua personagem faz no filme?
Nunca, adorava poder dizer que sim. Mas já salvei a vida de uma pessoa.
Verdade?
Sim, uma amiga minha. Conhece a Lauren Hutton? Estávamos a andar os dois de mota e ela não tinha capacete nem roupa apropriada. Emprestei-lhe o meu capacete e um casaco. Uns quantos quilómetros depois de arrancar teve um acidente terrível. Despistou-se e aterrou com o queixo, que estava protegido porque estava a usar o meu capacete. Portanto, salvei-lhe a vida, apesar de ter partido praticamente todos os ossos do corpo [risos].
Aconteceu-lhe algo a si?
Nada, eu nem assisti. Estava a uma boa distância.
Não impediu um suicídio mas e encontrar um livro especial em algum lado, que provocasse uma mudança de vida, como no filme?
Uma vez encontrei um diário. Bem, não era bem um diário, era uma espécie de livro com endereços, no banco de trás de um táxi. Foi uma coisa muito interessante porque olhava para as moradas e conhecia muitas daquelas pessoas, muitas figuras públicas. Quem seria a pessoa que sabia todas estas coisas sobre estas pessoas? Como poderia descobrir a quem é que o livro pertencia?
Talvez um jornalista?
Não faço ideia. Não sei bem o que aconteceu depois mas penso que o guardei ainda durante uns quatro anos. Cheguei a pensar em ligar para toda a gente da lista, criar uma outra lista com todas as pessoas que elas conheciam e aí, quem sabe, poderia cruzar referências e descobrir o dono.
Também lá estava o seu nome?
Não... espere, estava, sim, mas o número de telefone era antigo
Que pensa da sua personagem. Ela é um pouco aborrecida...
Muito aborrecida [risos].
Embarcaria numa aventura como a dele, de apanhar um comboio rumo a Lisboa?
Bem, eu embarco numa aventura sempre que vou trabalhar. É verdade. É como apanhar um comboio, conhecer sítios novos. Mas para o Gregorius foi uma coisa em grande. Foi também um daqueles momentos muito breves que acontecem tantas vezes na vida. Pense na vida como uma estrada. Quando tomamos uma decisão ela parece pequena, mas na verdade ela pode ser imensa. Imagine que está sentado num café a fumar um cigarro. A pessoa ao lado pergunta-lhe se tem lume e você diz que sim. Acendemos aquele cigarro e quarenta anos depois temos quatro filhos [risos]. Entretanto apaixonou-se. Pensa que foi um pequeno momento no tempo mas não foi.
O livro é bastante filosófico. Pensa que o filme capta totalmente essa essência, ou em que parte se foca mais?
Não capta tudo, claro. É um filme sobre relações e sobre o que acontece.
O Jeremy também tem um lado muito filosófico.
Sim, é verdade, mas isto não pode ser sobre filosofia, que trata ideias concretas. O que podemos ver é que é uma história sobre um homem cuja vida é mudada por algumas ideias e por conhecer pessoas cujos percursos são muito distintos do seu. Isso estabelece um confronto com a sua própria vida. Penso que é uma mensagem fabulosa. Em jovens temos tantas ambições, como ser jornalista, escrever um romance, etc, e depois concretizamos isso e quando chegamos à meia idade pensamos: “Onde estão os filhos que não tive? Porque estou sozinho?”. Há alturas em que decidimos mudar. [dizem-nos que o tempo se esgotou] Não, não, eles são quatro, dê-lhes mais tempo. A conferência de imprensa? Consegui perdê-la? Oh, ainda não foi, que pena [risos].
Há também um lado muito poético, e uma dicotomia entre a repressão do tempo da ditadura, e uma certa beleza.
Penso que sim. Lembro-me de estar em Praga ainda durante a ditadura, a rodar um filme, e todo aquele ambiente artístico era tão vibrante, com um sentimento imenso de comunidade. Quando regressei cinco anos depois, já em contexto de liberdade, tudo isso tinha acabado. Teremos que sofrer pela nossa arte? Não tenho a certeza que assim seja, mas penso que é em contextos difíceis que o melhor de nós vem à tona. No outro dia conversava com amigos em Budapeste e eles diziam-me que com toda a liberdade que agora tinham as coisas não eram tão excitantes.
Na conferência de imprensa do ano passado disse que iria estudar o período da ditadura em Portugal. Aprendeu alguma coisa?
Não tive tempo [risos]. Lamento. E tenho pena de não ter conhecido ninguém que estivesse directamente envolvido na resistência. Estava aqui todos os dias a rodar e não tive essa sorte. Conhecem alguém?
Sim. Que herança lhe deixou Portugal?
O que levo daqui? Tenho pena que Portugal não tenha mais orgulho em si. Sei que há uma espécie de névoa sobre a Europa neste momento mas espero que o que saia deste período seja uma actividade mais local. Que o poder de gestão de uma área esteja mais nas mãos de quem realmente a habita.
Que vai fazer depois deste filme?
Vai sair mais uma série dos “Borgias”, há um filme chamado “Beautiful Creatures” e agora espero apostar no documentário que fiz sobre o lixo.
Esteve em Bruxelas a semana passada a falar sobre o plástico.
Sim, tenho trabalhado nisso. Mas gostava também de passar uns três ou quatro meses só a viver a minha vida.
Neste filme é o seu personagem que guia os restantes...
Sim, viram o “Reviver o Passado em Brideshead”? O papel é parecido. Para mim o importante é sempre encontrar a verdade do personagem e conhecer a sua função no filme.
E continua a ser visto como já foi, uma “pin up para mulheres inteligentes”?
[risos] Já não, só se forem idosas.
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fonte:http://www.ionline.pt/
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